Na porta de sua pequena loja de artigos diversos, na região central de Cachoeira Paulista, Percival Pereira da Silva, de 88 anos, passa grande parte do seu dia admirando a movimentação na rua. Quem o vê ali talvez não imagine que aquele senhor, mais conhecido como Perci, guarde a história do município.
Ao longo de dez anos, de forma independente, costurou a colcha de retalhos do passado local, sendo um dos protagonistas na descoberta de inúmeros fatos marcantes da cidade. Em sua casa, mantém um acervo de fotos e escritos sobre a região.
Foi aos setenta anos, que o comerciante começou seu trabalho de resgate, em 1995, quando conquistou espaço em um jornal local para escrever piadas relacionadas a personagens da sociedade cachoeirense. Entretanto, isso não o deixava satisfeito e o que queria era desvendar as origem da terra onde nasceu.
Foi então que começou a fazer o traçado da origem do município. “Cachoeira é o embrião do Vale do Paraíba. As coisas começaram aqui com as caravanas do ouro”, contou Perci.
Desde a fundação da vila, que às margens do Paraíba deu origem a cidade, passando pela Revolução Constitucionalista de 1932, Regime Militar, chegando até os dias atuais, o historiador tem vivos na memória e nos textos escritos por ele à máquina (que somam mais de quinhentas páginas) detalhes das transformações e estagnações do município de 133 anos.
As anotações reúnem dados sobre os nomes que governaram a cidade, a origem dos bairros, as histórias por trás dos monumentos e curiosidades sobre as ruas. “Escrevi desde 1885 até 2005, prefeito por prefeito. Sei até dizer qual foi o melhor para a cidade ao longo desses anos”, brincou.
O cachoeirense, que fez dos mais de três mil livros que leu sua graduação, reúne um imenso acervo histórico com fotografias, áudios, periódicos e revistas datadas do início do século passado. Além da literatura, que lhe deu base para se aprofundar o seu lado curioso, Perci é um apaixonado por filmes que retratam a história, e guarda mais de dez mil VHS em sua coleção.
No período da Segunda Guerra Mundial, o historiador montou um sistema de alto-falantes na praça do Centro. Entre os intervalos das sessões do antigo cinema que movimentava o fim de semana na cidade, ele embalava músicas populares, intercaladas por propagandas. Mais do que simplesmente reproduzir sons, o papel do comerciante era manter a população informada sobre o andamento das batalhas entre os Aliados e o Eixo.
A programação ficou no ar até a década de 1960, mas guarda até hoje vinis britânicos como parte de sua própria memória. “A praça ficava cheia. Foram vinte anos de serviço”, relembrou o historiador.
Paralelo a isso, Perci foi responsável por retratar a história do médio Vale do Paraíba para o restante da nação. Atuou como correspondente de expressivos jornais, como O Estado de S. Paulo, Última Hora e Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo).
Ao ver que tanta história está guardada e não pode ser disponibilizada à população, o historiador se decepciona. Seu maior sonho é conseguir a concessão de um espaço em que possa disponibilizar toda a sua coleção para exposição. Com a idade avançada, ele frisa que ao morrer não quer imaginar o destino que será dado pela família ao acervo, mas demonstra que quer que o trabalho construído por ele sirva de referência às próximas gerações, que manterão viva a história da cidade e, consequentemente, a dele.
Allan Torquato
Jornal Atos

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