quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Perci: Um guardião da história do Vale


Na porta de sua pequena loja de artigos diversos, na região central de Cachoeira Paulista, Percival Pereira da Silva, de 88 anos, passa grande parte do seu dia admirando a movimentação na rua. Quem o vê ali talvez não imagine que aquele senhor, mais conhecido como Perci, guarde a história do município.

Ao longo de dez anos, de forma independente, costurou a colcha de retalhos do passado local, sendo um dos protagonistas na descoberta de inúmeros fatos marcantes da cidade. Em sua casa, mantém um acervo de fotos e escritos sobre a região.

Foi aos setenta anos, que o comerciante começou seu trabalho de resgate, em 1995, quando conquistou espaço em um jornal local para escrever piadas relacionadas a personagens da sociedade cachoeirense. Entretanto, isso não o deixava satisfeito e o que queria era desvendar as origem da terra onde nasceu. 
Foi então que começou a fazer o traçado da origem do município. “Cachoeira é o embrião do Vale do Paraíba. As coisas começaram aqui com as caravanas do ouro”, contou Perci.

Desde a fundação da vila, que às margens do Paraíba deu origem a cidade, passando pela Revolução Constitucionalista de 1932, Regime Militar, chegando até os dias atuais, o historiador tem vivos na memória e nos textos escritos por ele à máquina (que somam mais de quinhentas páginas) detalhes das transformações e estagnações do município de 133 anos. 

As anotações reúnem dados sobre os nomes que governaram a cidade, a origem dos bairros, as histórias por trás dos monumentos e curiosidades sobre as ruas. “Escrevi desde 1885 até 2005, prefeito por prefeito. Sei até dizer qual foi o melhor para a cidade ao longo desses anos”, brincou.

O cachoeirense, que fez dos mais de três mil livros que leu sua graduação, reúne um imenso acervo histórico com fotografias, áudios, periódicos e revistas datadas do início do século passado. Além da literatura, que lhe deu base para se aprofundar o seu lado curioso, Perci é um apaixonado por filmes que retratam a história, e guarda mais de dez mil VHS em sua coleção.

No período da Segunda Guerra Mundial, o historiador montou um sistema de alto-falantes na praça do Centro. Entre os intervalos das sessões do antigo cinema que movimentava o fim de semana na cidade, ele embalava músicas populares, intercaladas por propagandas. Mais do que simplesmente reproduzir sons, o papel do comerciante era manter a população informada sobre o andamento das batalhas entre os Aliados e o Eixo.

A programação ficou no ar até a década de 1960, mas guarda até hoje vinis britânicos como parte de sua própria memória. “A praça ficava cheia. Foram vinte anos de serviço”, relembrou o historiador.
Paralelo a isso, Perci foi responsável por retratar a história do médio Vale do Paraíba para o restante da nação. Atuou como correspondente de expressivos jornais, como O Estado de S. Paulo, Última Hora e Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo).

Ao ver que tanta história está guardada e não pode ser disponibilizada à população, o historiador se decepciona. Seu maior sonho é conseguir a concessão de um espaço em que possa disponibilizar toda a sua coleção para exposição. Com a idade avançada, ele  frisa que ao morrer não quer imaginar o destino que será dado pela família ao acervo, mas demonstra que quer que o trabalho construído por ele sirva de referência às próximas gerações, que manterão viva a história da cidade e, consequentemente, a dele.

Allan Torquato
Jornal Atos

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