Se geralmente um dos primeiros brinquedos de um menino é a bola, na família Oliveira, em Cruzeiro, no interior de São Paulo, o objeto tem sido trocado pelo apito. Dona Teresa é mãe de Paulo César e Luiz Flávio de Oliveira, árbitros filiados na categoria especial (a mais alta) da Federação Paulista de Futebol. O primeiro pertence ao quadro Fifa e foi eleito em dezembro o melhor árbitro do Brasileirão 2013. O gosto da família pelo uniforme diferente dos jogadores não para por aí. A sobrinha da dupla, Patrícia Carla Oliveira, é assistente também da categoria especial da FPF. Paixão pelo apito que inspira o caçula da turma a dar continuidade à linhagem dos Oliveira. Flavinho, filho de Luiz Flávio, tem apenas nove anos, mas já sabe ''o que quer ser quando crescer'': árbitro, como o pai.
Sonho é de usar a arbitragem como o primeiro emprego
Paulo César
A família Oliveira tem status de celebridade em Cruzeiro, cidade a 224km de São Paulo com cerca de 80 mil habitantes na região do Vale do Paraíba. Acostumados aos holofotes apenas quando cometem erros, os árbitros vivem uma realidade bem diferente em sua terra natal. Dão autógrafos, tiram fotos, têm o nome gritado pela torcida nos jogos festivos em que participam, quando a rotina dos campeonatos oficiais permite. Exemplo mais recente do calor do povo cruzeirense pela dupla aconteceu no jogo beneficente do meia Rosinei, do Atlético-MG.
Se depender dos irmãos, Cruzeiro se tornará capital brasileira da arbitragem. Apesar de terem seus próprios negócios - Paulo tem uma casa para eventos infantis e Luiz Flávio uma lanchonete - juntos desenvolvem um projeto para transformar a arbitragem em uma espécie de primeiro emprego aos jovens da cidade. Como a profissão de árbitro não é regulamentada no país, a intenção da dupla é ministrar cursos para que os participantes ganhem uma ajuda de custo em jogos de categoria de base, como árbitros do futebol de várzea.
– A gente tem um sonho de usar a arbitragem como primeiro emprego. A gente sabe que muitas pessoas que apitam jogos amadores, que trabalham na várzea, ganham uma ajuda de custo por isso. Por que não fazer um trabalho assim com os jovens, para que eles apitem jogos de categorias menores e consigam um primeiro emprego? Eles começariam assim e poderiam seguir a carreira profissional mais para frente - disse Luiz Flávio.
O projeto está em fase de formatação. Como conciliam seus negócios com a arbitragem, os irmãos têm usado o pouco tempo livre que resta para finalizar a ideia, que deve ser levada ao poder público.
– (O projeto) está em estudo. Temos nossas coisas e a carreira de árbitro, mas sempre que podemos sentamos para conversar. Passado esse início que é mais complicado, vamos tirar isso do papel - conta Luiz Flávio, aspirante ao quadro da Fifa.
(Foto: Arthur Costa/GloboEsporte.com)
Paulo César tem 40 anos, foi o primeiro da família a se destacar com o apito. O prestígio na cidade o motiva a encarar o projeto ao lado do irmão. Em uma cidade que também tem como filhos ilustres, além de Rosinei, o atacante do Botafogo, Bruno Mendes, e o zagueiro Breno, ex-São Paulo e do Bayern de Munique, não é exagero dizer que o árbitro inspira os jovens cruzeirenses.
– É muito satisfatório poder receber o carinho e o reconhecimento das pessoas de Cruzeiro. Vivo isso no meu dia a dia com as pessoas que me encontram na rua e que me conhecem desde a infância, que torcem pelo meu trabalho. Pessoas que dizem que quando estou apitando até esquecem dos times que estão jogando para ficar naquela corrente positiva para que tudo ocorra bem nos jogos, para que a gente não cometa erro. Isso me deixa bastante orgulhoso - comenta Paulo César.
Árbitro mirim e os xingamentos ao papai
Luiz Flávio de Oliveira Júnior tinha muitas opções de camisa para acompanhar o pai no jogo festivo de Rosinei em que a família Oliveira formaria o trio de arbitragem. Entre uniformes de times do Brasil e do exterior, foi com o da família que resolveu ir a campo.
– Eu o deixo bem à vontade. Já é o terceiro evento que ele vem vestido de árbitro, e é ele quem quer, viu (risos). Se ele quiser seguir carreira, terá o apoio do tio Fifa e do pai aspirante - conta, orgulhoso, Luiz Flávio.
A torcida xinga. Não é nada contra meu pai
Juninho, árbitro mirim
Aos nove anos, o garoto mostra desenvoltura. E logo entrega o pai. Luiz Flávio deseja que o filho seja jogador de futebol.
– Eu tenho o sonho de ser árbitro como meu pai. Ele queria que eu fosse jogador para poder apitar um jogo meu, mas eu quero apitar, mesmo - conta o garoto, que diz até entender o xingamento da torcida aos juízes.
– Eu vejo que a torcida xinga, mas faz isso pelo time deles. Não é nada contra meu pai - completa.
Fonte: globoesporte.com/vale
Nenhum comentário:
Postar um comentário